Não tenho calendário, mas...

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O custo de um calendário que só dura três meses

 
Nessa época do ano já começam as ligações por consultas de jogadores que temos no nosso portfólio, clubes do exterior, clubes já com a temporada terminada e clubes... sem calendário! São telefonemas que iniciam muitas vezes assim: "— Não tenho calendário, mas..."

"— Mas vamos montar um time forte pro Estadual."

"— Mas vamos brigar pela vaga na Série D de 2028."

"— Mas o meu estadual e o meu clube são ótimas vitrines pro seu jogador."

Há muitos clubes menores que têm apenas o campeonato do seu estado para jogar. E estes estaduais têm apenas 8 semanas para acontecerem, segundo o calendário do futebol brasileiro divulgado pela CBF. São propostas de contratos de 3 a 4 meses, às vezes até com valores consideráveis, porém há riscos importantes que devemos considerar.

Em um torneio de 8 semanas, com até 12 partidas, uma lesão leve, dessas que custam apenas uma semana de recuperação, pode tirar do atleta 25% dos jogos do seu contrato. E se ele estava apostando naquele estadual para conseguir um contrato para o resto da temporada, o tiro pode sair pela culatra. Esse é apenas um exemplo.

O Estadual acaba, e o atleta volta ao mercado em busca de emprego. O ciclo se repete ano após ano, em centenas de clubes pelo país.

Numa temporada de pelo menos 40 jogos, a mesma lesão custa menos de 10% da exposição. O problema não é o jogador se machucar. É o jogador se machucar quando a temporada inteira cabe em três meses.

A pirâmide que parou no meio


O topo da pirâmide já está perto do limite: Série A com 20 clubes, Série B que pode chegar a 24, Série C caminhando para 28 e uma Série D inchada, com 96 clubes. Ainda assim, um país continental como o Brasil tem menos de mil clubes profissionais registrados e, no ano passado, mais de 200 ficaram inativos. Há um oceano de espaço entre o que a pirâmide é e o que ela pode ser.

Quanto mais forte a base, mais alto o prédio sobe. Hoje a base é a parte mais frágil: clubes que jogam três meses, jogadores que trabalham três meses, contratos que duram três meses. Um mercado assim não é um mercado de futebol, é um mercado de bicos.

Quem paga a conta?


Esta é a primeira pergunta que todo mundo faz, e a resposta honesta começa com outra pergunta: quem paga a conta hoje?

A conta de hoje já não fecha. O clube pequeno paga três meses de salário e fica nove parado. O jogador, nove meses desempregado. A cidade, nove meses sem futebol. O patrocinador, nove meses sem visibilidade. Ninguém está "pagando a conta", todo mundo está contendo o prejuízo.

Por isso, a pergunta certa não é "quem paga?", e sim "como a transição acontece?"

O plano: o estadual como a quinta divisão nacional


O plano é transformar os estaduais em campeonatos que ocupam o ano inteiro, integrados ao caminho de promoção do futebol brasileiro. Cada estadual vira, de acordo com seu tamanho e sua capacidade, a quinta, a sexta e as demais divisões nacionais. O estadual deixa de ser um evento de três meses e passa a ser a porta de entrada da pirâmide, com acesso claro até a Série D e além.

Agora que a CBF divulgou o plano macro do calendário do futebol brasileiro de 2026 a 2029, devemos iniciar o debate em nível nacional entre CBF, federações, clubes, jogadores e agentes, e depois localmente, pois como já venho dizendo nos meus artigos anteriores, cada federação tem suas particularidades. Iniciada a transição, clubes e federações se preparam, estruturas se organizam, o mercado entende o novo desenho e, no caminho, uma primeira consequência: o calendário cheio separa os amadores dos profissionais, os competentes dos incompetentes, os sérios dos apenas sonhadores.

E há um detalhe institucional que torna essa proposta mais viável do que parece. As federações estaduais são entidades filiadas à CBF, mas autônomas: organizam seus campeonatos sob regulamento próprio. A CBF não pode impor um formato a nenhuma delas. Pode sugerir, apresentar prós e contras, abrir o debate.

O que a CBF controla são as vagas nas suas competições. Todos os anos, em regulamento, ela define quantas vagas cada federação recebe para distribuir na Série D e na Copa do Brasil, e essa conta segue o ranking de federações, não o arbítrio. Mais do que isso: o regulamento veda que a federação direcione a vaga em desacordo com os critérios da CBF. A vaga é, portanto, um instrumento real de indução.

Por isso este não é um projeto de cima para baixo: é um caminho que se adota por adesão, estado por estado, à medida que os resultados aparecem. E a CBF já usa essa alavanca. Em 2027, passou a permitir que todas as federações destinem ao menos uma vaga a um torneio seletivo ou copa estadual — antes, só 14 estados podiam. O que proponho é ampliar essa mesma lógica: usar a vaga para fomentar calendário.

O que os vizinhos ensinaram


Um calendário ruim e fragmentado é prejudicial no longo prazo. Vejam nossos países vizinhos, também membros da Conmebol, que implementaram os sistemas de “Apertura/Clausura” nos anos 1980-90 com uma mistura de motivos e intenções na época: pressão do calendário internacional de seleções e Libertadores, janelas de transferências, busca de mais "finais" e títulos por ano para gerar bilheteria e interesse da TV, e encurtamento das temporadas. Fatiaram a temporada para caber no calendário global, e pagaram com fragmentação.

Com este formato, se um clube vai mal em um Apertura, desmonta-se o elenco, remonta o time para o Clausura. Esta instabilidade de elenco é um dos efeitos amplamente criticados por analistas do futebol, inclusive eu, pois inibe o planejamento de médio e longo prazo, desvaloriza os títulos, empobrece a identidade dos clubes. Há o contraponto dos defensores deste formato, como mais finais, mais público, mais emoção em países com economias menores. Acredito que, com décadas de dados, já se pode concluir que a fragmentação não é o melhor caminho.

Neste ponto o Brasil tem um diferencial que ninguém tem, as 27 federações estaduais. Integrando-as, a dominância do futebol brasileiro no continente tende a perpetuar-se.

O dinheiro aparece quando o calendário existe


Calendário cheio e claro cria as condições que hoje não existem:

Investidor

A lei das SAFs abriu a porta para aportes e gestão profissional. Mas nenhum investidor entra num clube que joga três meses por ano, sem calendário previsível e sem visão de longo prazo. Calendário cheio e claro é o que dá previsibilidade. A SAF não é a resposta para todos os clubes, é a prova de que o capital espera o ambiente certo. Converso com muitos clubes que viraram SAF e têm seus investidores animados com o futebol, e a grande maioria deles fala que o plano é chegar à Série B do Brasileiro. Sinceramente, não tem vaga para todos. Hoje, clubes de massa e tradicionais já não conseguem se manter eternamente na Série A, e eles ocupam um espaço que não está disponível para quem chega. Outra coisa que vejo é investidores saindo um ou dois anos depois, justamente por conta destes calendários fragmentados como um dos fatores. O investidor aposta em uma chegada na Série D via um atalho de uma copa local, a vaga não chega, o investidor desiste, o clube fica com o passivo.

É claro que os acessos são difíceis em qualquer cenário, porém um calendário de ano inteiro, com jogos suficientes, e regras claras de acesso e rebaixamento, cria um ambiente de negócios mais previsível para o investidor.

Patrocinador regional

O patrocinador local, aquele negócio que é forte na cidade ou no estado, hoje não tem espaço no futebol, pois os torneios locais são curtos e desvalorizados, e os nacionais são caros. O Brasileirão já se chamou Assaí, uma rede de atacadistas com abrangência nacional, e o Catarinense tem como parceiro o Fort Atacadista, com forte presença em Santa Catarina, que conversa diretamente com o público do estado. Calendário cheio local traz para o futebol o negócio que vive perto do torcedor proporcionando ações, ativações, e exposição da marca no dia a dia das cidades onde estão presentes.

Mídia regional

TV regional, rádios, canais locais de esporte ganham com mais jogos: vendem espaço publicitário para os parceiros locais, aumentam a audiência nas plataformas de streaming, formam mais profissionais de jornalismo esportivo.

Infraestrutura

Calendários anuais atraem investimento para construção de centros de treinamento, estádios e demais estruturas para o futebol. São aqueles empregos indiretos que são gerados, fazendo a economia girar.

Estes são só alguns exemplos.

E as federações passam a ter mais protagonismo e um papel fundamental: criar e fomentar o ambiente de negócios do futebol com eventos regionais, seminários, workshops, feiras, formação de mais árbitros, treinadores, e demais profissionais ligados ao futebol, como, por exemplo, ajudar os clubes a montar seus departamentos comerciais e de marketing. Há muitas oportunidades quando se olha com atenção para o próprio estado e o futebol acontece o ano inteiro.

Mais vitrines


Mais clubes jogando significa mais vitrines, e mais vitrines significam mais observadores de todas as ligas do mundo acompanhando mais jogos. Se exportamos 1.000, podemos exportar 2.000 no futuro.

Clubes menores podem investir em jovens profissionais, jogadores de 17 a 23 anos de suas bases ou emprestados de clubes maiores, com taxa de vitrine em caso de negociação. O atleta jogando o ano inteiro, com 40 ou mais partidas, desenvolve-se e aparece. Os observadores têm mais oportunidades de vê-lo, e ele ganha mais chances de ir para uma liga melhor. Isso não é formação de base, é o mercado profissional funcionando.

Clubes grandes ou capitalizados podem lançar seus “times B” a fim de igualmente dar mais exposição aos seus atletas jovens e desenvolvê-los em ambientes mais competitivos.

O sintoma que prova a tese


No meu dia a dia, converso com muitos clubes e federações, e ouço coisas preocupantes. Clubes pedindo para inscrever mais atletas amadores nos torneios profissionais, para diminuir custos. Sugerem torneios curtos, mas com vaga garantida no cenário nacional, de forma que possam fazer contratos curtos e tantas outras. Coisas que, na minha opinião, não se conectam. Em vez de crescer o mercado, apenas o mantém pequeno e sem atratividade.

Mas atenção: esse pedido não é um desvio dos clubes. É a consequência lógica de um sistema sem calendário. O clube pede amador porque não consegue pagar profissional sem jogos o ano inteiro. Ele está tentando sobreviver. Futebol profissional é uma operação cara. Um clube profissional, por menor que seja, vai ter um elenco de 25 atletas, mais comissão técnica, staff, administrativo. São dezenas de famílias que dependem daqueles contratos. O sistema atual empurra o clube para a informalidade e o amadorismo.

Ninguém paga a conta sozinho. Debate nacional, debate local, calendário escalonado, federações como protagonistas. Calendário cheio local cria um ambiente de mercado virtuoso: contratos longos, investidores com visão, patrocinadores próximos, mídia regional crescendo, mais oportunidade e exposição para o talento.

Expansão cria abundância, e formato cria valor. O Brasil não precisa de menos futebol. Precisa de mais futebol, mais bem distribuído, e de uma transição digna de quem leva esse futuro a sério.

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